Morar é fazer parte da história de onde vivemos
A morada é mais do que o local onde se vive por ser marcada tanto pelos acontecimentos corriqueiros do dia a dia,
quanto pelas coisas, objetos, a própria casa e, principalmente, pelas pessoas que nos cercam.
Macuxi nascido em Boa Vista/RR, vim para Manaus aos 10 anos de idade, em 1965, por um motivo que, à época, não entendi. Meu pai, funcionário público, fora agredido na rua em decorrência de divergências políticas. Eram anos pesados, dizem alguns, para outros, anos de crescimento. Enfim, para não colocar em risco a família, meu pai resolveu que nos mudaríamos para Manaus, onde chegamos às vésperas do Natal daquele ano, em voo da extinta empresa aérea Cruzeiro do Sul.

Aqui, fomos morar no bairro Santa Luzia, a casa, de dois pisos, de madeira, era bem humilde, assim como o próprio local, com ruas sem asfalto e a água usada ou das chuvas corria livre por essas ruas sem calçamento.
Se lá em Boa Vista a gente acordava vendo o sol nascer sobre as montanhas acima do rio Branco, com suas praias
hoje quase inexistentes, em Manaus nada disso havia. Longe do rio Negro, mas perto da Pancada, parte do igarapé do Quarenta, entre Santa Luzia e a Cachoeirinha, o que a garotada podia fazer era pular n’água, isto quando era época de enchente, pois na vazante o leito do igarapé mostrava as pedras onde as mulheres, àquela época, lavavam roupas.
Diversão em Santa Luzia, para a garotada pré-adolescente, quase não existia. Entre maio e junho havia as quadrilhas lideradas por Abelardo Santos e também por mestre Clóvis. Bois-bumbás também faziam a alegria dos moradores. Alguns torciam pelo Corre-Campo, outros preferiam o contrário.
Um pouco maior, aí pelos 14, 16 anos, eu participava das quadrilhas. Momento dos mais importantes, porque, nos ensaios, a gente conhecia as garotas quando formávamos os pares para dançar na quadrilha Socaite na Roça. Salvo engano, era assim que se chamava. Ensaios todos os dias quando se aproximava o festival folclórico, naqueles tempos apresentado na praça/campo do Colégio Militar de Manaus. Nunca me apresentei ali com a quadrilha: sem grana para comprar as roupas e adereços, era missão impossível, mas, pelo menos, aumentava a lista das amigas que faziam par comigo e participavam dos ensaios.
Santa Luzia, cuja padroeira sempre protege os olhos, tinha a igrejinha, nos anos 1960, tão humilde ou mais que a casa onde morávamos, apelidada – a casa – pelos colegas e amigos de “mansão dos Libórios”, uma ironia finíssima, mas que só os conhecedores da “mansão” percebiam.
Na igreja, pontificava o padre Paulino, ele oficiava os sacramentos e não perdia oportunidade de, sempre que um moleque aprontava malfeito, aplicar um “cascudo” como corretivo. A molecada temia o padre não pelo castigo de Deus pregado para os pecadores, mas pelos cascudos infligidos por ele, o padre.
Além da igrejinha, havia a praça de Santa Luzia, hoje transformada mais em passeio do que praça. Ali, moças e rapazes, num tempo em que a energia era fraca, com pouca luminosidade, sem a tecnologia LED atual, aproveitavam para namorar.
O campo do Guanabara, palco do ensaio dos bumbás do bairro, era outro local frequentado pelos namorados em época de arraial e festas juninas. Já na subida do Morro da Liberdade, o campo era usado para as peladas de futebol, de dia, e servia de área de lazer, em meados do ano, para ensaios dos bois,, à noite. Tudo muda, virou garagem depois.
Morar é fazer parte da história do local onde moramos e, mesmo longe de Santa Luzia desde 1981, quando saí do bairro, Santa Luzia e adjacências como o Morro da Liberdade, da minha querida escola de samba, continuam em nosso coração.
Publicado no JC em 24/10/2019
Influência dos ‘pidões’ em campanhas eleitorais

Dedo em riste e o candidato inicia a arenga no vídeo de seu televisor, diariamente, nos horários gratuitos ‘patrocinados’ pelo TRE. Ao telespectador, dublê de eleitor, resta a opção de assistir aos programas eleitorais e tentar obter alguma informação, a partir da qual possa formar opinião sobre as dezenas de candidatos cujas motivações para postular um cargo eletivo repousam sobre os mais variados interesses. Aos mais abastados, com poder de compra suficiente para bancar o aluguel de canais distribuídos via satélite, há a abertura para ver estes canais durante o horário eleitoral, posição não compartilhada pela maioria da população.
Entre os programas de TV e os comícios, onde o corpo-a-corpo é mais pesado e o candidato pode interagir com os eleitores, a TV sobressai face ao grande potencial do universo de eleitores a ser atingido por esta mídia. Entretanto, a falta de retorno imediato por parte da população aos programas de TV pode levar o candidato a cometer enganos de avaliação acerca da aceitação de seu nome ao cargo postulado, ou mesmo sobre o grau de rejeição.
Disputa por espaços
Os espaços em muros e outros locais estratégicos para a aposição de cartazes, faixas, estandartes e outros similares, estão sendo disputadíssimos pelas centenas de postulantes aos assentos no Legislativo e no Executivo, os quais, mesmo alegando a falta de recursos para custear a campanha eleitoral, conseguem de alguma forma colocar sua mensagem à vista da população. É o encontro dos políticos com povo se efetivando infalivelmente de dois em dois anos. Nos intervalos a população reclama do mau uso dado à procuração outorgada ao candidato-cortejador de hoje, enquanto este, salvo as exceções de praxe, se entrega ao gozo dos privilégios inerentes ao cargo conquistado com tanto suor, trabalho e promessas.
Os comitês de candidatos são, hoje, uma arapuca financeira face ao grande número de pessoas carentes – e não tão carentes assim – cuja afluência se dá desde o raiar do dia, indo até o fechamento do comitê, já com a noite bem encaminhada, à procura de, às vezes pequenos favores, outras nem tanto, mas sempre tentando obter algo do candidato ‘eleito’. Neste caso efetivamente eleito para atender a solicitação do “pidão”.
Retrato em preto & branco
Aí temos o retrato ainda em preto-e-branco do maior contingente de nossa população, aquele situado na faixa mais baixa de renda, com grau de instrução mínimo ou inexistente, sem-teto e morando em favelas de difícil acesso, sem informação sobre os aparelhos públicos de atendimento social e, o pior, geralmente desempregado com uma prole numerosa para sustentar.
Neste segmento, onde ronda a miséria e as carências básicas não posem ser satisfeitas por falta de ocupação no mercado de trabalho, vivem aqueles que lotam os comitês em busca de atendimento para seus pequenos ou grandes problemas.
A falta de esclarecimento e educação destas pessoas, conjugados com o oportunismo dos candidatos para-quedistas, levam muitas delas a “oferecer” o voto, como se mercadoria fosse, em troca das mais diversas soluções aos seus problemas, e aí, relembrando Pelé, poderíamos indagar: O povo brasileiro está preparado para votar? À revelia da aparência denotada pela atitude dos “pidões”, com certeza diremos sim. O povo brasileiro, mesmo elegendo o rapaz das Alagoas quando este aparentava ser melhor candidato, soube também, de maneira irretocável, ir às ruas comandar o processo de impeachment do esportista dublê de presidente.
Sem ilusão
Não tenhamos, porém, a ilusão de somente o povo ser o responsável pelas práticas pouco recomendáveis e prolíferas nas campanhas eleitorais. Os candidatos, com as exceções de sempre, também deixam mensagens subliminares ao cortejar o eleitor. A prática do debate entre as duas partes não é, ainda, uma tradição em nossa terra. No lugar deste, muitas vezes somos expostos à arenga pouco esclarecedora dos programas de TV, às malas diretas onde somos tratados por “caro amigo” sem nunca termos visto o missivista e muito menos este a nós.
Mas enquanto a campanha caminha sua etapa final, os “pidões” se regalam com camisetas made in China, onde levam a mensagem de candidatos perfeitamente desconhecidos e nos quais sequer votarão, trazem na cabeça bonés da mesma procedência e com a mesma mensagem, sem atentar para o fato de o seu posto de trabalho ter sido eliminado, muitas vezes, em decorrência justamente da importação destes e de outros produtos. Não consideram, nem lembram de acompanhar o desempenho dos candidatos eleitos acerca do cumprimento das promessas feitas nas campanhas, muito menos percebem ser a implantação de projetos visando o bem-estar da população um dever de quem ocupa cargo no Executivo, assim como o de propor, através de projetos de lei, ações em benefício da população é também dever dos legisladores para isto eleitos.
Publicado no JC em 28/08/1998

