Imitação do curupira

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Eustáquio Libório

O imbróglio em que se transformou a iniciativa do governo federal de unificar as alíquotas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e assim extinguir a guerra fiscal entre os entes federados faz lembrar que, em termos de dependência da autoridade central e das dificuldades de acesso logístico o Amazonas pouco progrediu desde o dia 28 de fevereiro de 1967, quando governava o Brasil o general Humberto de Alencar Castello Branco, que deixaria a Presidência da República duas semanas depois de ter criado a Zona Franca de Manaus (ZFM).

Se a constatação, por exemplo, de que o Estado do Pará foi  beneficiário de 71,9% dos investimentos incentivados pela Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) entre 1964 e 1966 serviu para indicar aos militares que então governavam o país que o capital privado preferia o litoral do Pará em detrimento da floresta do Amazonas, que no mesmo período só conseguiu captar 4,6% desses investimentos, por outro lado também chamou a atenção para a necessidade de integrar a parte oeste da Amazônia ao país.

Como agora, àquela época a Amazônia não fazia parte das prioridades dos tomadores de decisão que privilegiavam a industrialização do Sul/Sudeste, onde a indústria automobilística se instalara e, poucos anos antes, em 1956, o presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira resolvera criar, no centro do país, a nova capital, Brasília, evidentemente ligada por rodovias ao restante do país para garantir aos veículos então fabricados no país a demanda necessária.

Fora do eixo de decisão, em um tempo no qual sair de Manaus era uma aventura pela via aérea, só disponível para os abastados, enquanto a maior parte das pessoas se deslocava em navios para atingir outras cidades, inclusive a capital do país, então o Rio de Janeiro, o Amazonas, com pouco mais de 700 mil habitantes no início da década de 1960, era o deserto demográfico que viria justificar o slogan dos militares em relação à criação de um polo de indústria, comércio e serviços no meio da floresta: “Integrar para não entregar”.

Em um mundo polarizado, refém da Guerra Fria, onde os países se alinhavam à comunista União das Repúblicas Socialistas Sovíéticas (URSS) ou aos Estados Unidos da América (EUA), os militares optaram pela parceria norte-americana e, assim, se buscou implantar em Manaus, capital onde a economia estagnada desde o fim da II Guerra Mundial dispunha de braços a custo baixo para atrair investidores nacionais ou estrangeiros, devidamente incentivados pelo corte substancial nos tributos, uma das primeiras zonas francas do mundo.

Na atualidade, como já foi dito pelo ex-governador Arthur Cezar Ferreira Reis em relação ao governo federal nos anos 1960: “Se não havia má vontade, havia desinteresse, despreocupação… igonorância da matéria…” sobre o descaso e campanhas para que a Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia (Spvea), assim como a Zona Franca de Manaus, não desse certo.

A Amazônia e o Amazonas continuam à margem, ou para usar um termo mais ao gosto da esquerda, excluídos das prioridades do governo central e o pouco que foi realizado neste quase meio século de incentivos ao modelo ZFM não despertou um olhar estratégico nos administradores do Amazonas para oferecer um redirecionamento que tirasse a economia do Estado dessa dependência política e do modelo incentivado, que coloca o Amazonas na situação do Curupira, que se move em uma direção e deixa pegadas em outra.

Eustáquio Libório é jornalista

E-mail: liborio.eus@uol.com.br

Publicado na revista PIM, nº 38, ed. maio/2013

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Concentração de incentivos e emprego disperso

Eustáquio Libório

Os 42 projetos analisados na última reunião do Conselho de Desenvolvimento do Amazonas (Codam), ocorrida em 24 de abril, totalizavam investimentos de R$ 875,78 milhões e previam a criação, em três anos, de 2.054 novos postos de trabalho.

Visto assim, no geral, é de se pensar no alto grau de atração que o Polo Industrial de Manaus (PIM) exerce sobre indústrias dos mais variados segmentos, pois nos últimos anos têm conseguido trazer organizações do segmento de fármacos, de bebidas e também de bens de informática.

Ao mesmo tempo em que é de se aplaudir as iniciativas para atrair empresas para Manaus, é também oportuna a constatação do fato de que existem projetos de grande valor financeiro, a ser investido em máquinas e equipamentos, mas que não contemplam um grande contingente de mão de obra.

Exemplo disso pode ser o projeto da Red Bull, com mais de R$ 500 milhões para investimento e cuja expectativa de criação de postos de trabalho se resume a 79 vagas.

Voltando aos 42 projetos da última reunião do Codam, que já acumula neste ano, em duas reuniões, mais de R$ 1,1 bilhão em projetos aprovados, cumpre, porém, ressalvar que, dos R$ 875,78  milhões apreciados na última reunião, R$ 316 milhões se referem a projeto da Digibrás, para fabricar telefones celulares no PIM com possibilidade de gerar 144 postos de trabalho.

Esses dados, e outros da mesma natureza, levam à conclusão de que uma das principais vantagens de se ter um polo industrial, que é a criação de empregos, pode estar sendo solapada com a chegada de companhias que usam tecnologia de ponta em seus processos de produção e, por isso, deixam de incluir contingente maior de colaboradores em suas plantas industriais.

Um quadro comparativo de dois momentos – 2007 e 2012 – e que considera três variávveis: postos de trabalho, restituição do ICMS e faturamento, pode ilustrar melhor essa situação.

Se em 2007 os cinco principais setores do PIM, com 82.934 postos de trabalho dos 89.024 empregos diretos existentes, eram responsáveis por 93,16% desse contingente, em 2012 esses mesmos segmentos – eletroeletrônicos, duas rodas, termoplásticos, metalúrgico e mecânico – só detêm 82,88% de participação no estoque de postos de trabalho do PIM, em que pese terem aumentado o número de vagas para 99.497 de um total de 120.055 existentes.

No caso dos eletroeletrônicos, que engloba o subsetor de bens de informática, é necessário frisar que sua participação no estoque de empregos, que era de 52%, em 2007, caiu, no ano passado, para 43%.

Ao mesmo tempo, o setor eletroeletrônico manteve a participação nos valores de restituição do ICMS, equivalente a 48% do total restituído pelo Estado do Amazonas, que em 2007 foi de R$ 2,50 bilhôes e em 2012 atingiu o montante de R$ 3,94 bilhôes.

No que diz respeito ao faturamento da indústria do polo de Manaus, com exceção dos eletroeletrônicos, cuja participação no total passou de 31,10%, em 2007, para 35,53% em 2012, e do setor mecânico que tinha 2,54% em 2007 e no ano passado atingiu 4,45% do total das vendas, os outros três segmentos perderam espaço. Aliás, pelos números divulgados pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), o segmento mecânico é um setor em ascensão, pois apresenta crescimento também nas duas outras variáveis.

Por fim, é de se registrar que a participação total dos cinco principais setores nas três variáveis analisadas apresenta queda no comparativo de 2007 com 2012. Na mão de obra, passou de 93,16% para 82,88% em 2012; na restituição do ICMS de 77,96% para 71,83% e no faturamento, bem menor, passou de 68,33% em 2007 para 67,65% no ano passado.

Eustáquio Libório é jornalista

E-mail: liborio.eus@uol.com.br

Publicado na revista PIM, nº 37, ed. abril/2013